domingo, julho 15, 2007

PARIS, TE AMO

Todo longa composto pela a união de diversos curtas é, por definição, irregular. PARIS, TE AMO não foge desta sina, porém, felizmente, de modo muito positivo. A grande maioria dos curtas - são 18 no total - são excelentes! Claro, tem também alguns muito bons, outros somente bons, e uns dois ou três razoáveis. De fato, apenas um me decepcionou. Isso dá uma média excepcional, não?
Iniciativa da dupla de cineastas Tristan Carné e Emmanuel Benbihy (este responsável pela direção dos trechos de transição entre uma trama e outra), PARIS, TE AMO é o primeiro resultado de um projeto chamado "Cidades do Amor" - os próximos deverão ser sobre New York e Shanghai. E eles conseguiram recrutar, para esta "estréia", 21 cineastas das mais diversas nacionalidades, culturas, idades, tradições e gêneros. E o que temos é uma obra absurdamente envolvente, carismática, reveladora e instigante.
Em comum, os 18 enredos de PARIS, TE AMO têm o fato de se passarem cada um num bairro diferente da capital francesa e serem, todos, histórias de amor. O romance estará presente sob as mais distintas motivações: paixão, fraternidade, humanismo, nostalgia, carinho, saudade e até sobrenatural. Com um elenco impressionante e cineastas realmente empolgados com a proposta, tem-se um dos filmes mais encantadores dos últimos tempos, uma experiência inesquecível para todos aqueles que já se apaixonaram - por Paris ou não!

01. Montmartre
Dirigido, escrito e protagonizado pelo realizador grego Bruno Podalydès, mostra um homem que quer estacionar seu carro enquanto reflete sobre suas atitudes e sobre a própria vida. Um início tímido, que não faz jus a tudo que está por vir.

02. Quais de Seine
A diretora de origem indiana Gurinder Chadha (DRIBLANDO O DESTINO / "Bend it Like Beckham") fala da atração que surge entre um garoto francês e uma moça muçulmana. Estranhamento, compreensão e sinceridade caminham juntos neste simpático libelo de paz. A emoção começa a aflorar!

03. Le Marais
O norte-americano - e gay assumido - Gus Van Sant (GÊNIO INDOMÁVEL, ELEFANTE) é responsável pelo único episódio de tonalidade homossexual. Mas a trama vai além do óbvio desejo que surge entre dois rapazes. Espiritualidade, destino e à procura por uma alma gêmea, independente do corpo e sexo em que ela se apresenta, eleva a discussão. Um dos protagonistas é interpretado por Gaspard Ulliel, de ETERNO AMOR e HANNIBAL - A ORIGEM, e há também uma participação especial da cantora Marianne Faithfull (vista há pouco em MARIA ANTONIETA).

04. Tuileries
Os irmãos Joel e Ethan Coen (FARGO, O HOMEM QUE NÃO ESTAVA LÁ) criam o mais cômico dos segmentos. Steve Buscemi (CÃES DE ALUGUEL) é um turista que acapa no meio da pegação de um casal de namorados, numa estação de metrô. Despreocupado em querer passar grandes mensagens, diverte e entretêm.

05. Loin du 16e
Os brasileiros Walter Salles e Daniela Thomas, que juntos dirigiram TERRA ESTRANGEIRA e O PRIMEIRO DIA, contam em LONGE DO 16º DISTRITO com a colombiana indicada ao Oscar Catalina Sandino-Moreno (MARIA CHEIA DE GRAÇAS), neste que é um dos pontos altos do longa. Emocionante, simples e bastante direto, comove com palavras escassas e olhares de muitos significados. De cortar o coração.

06. Porte de Choisy
O australiano Christopher Doyle, diretor de fotografia de filmes como A DAMA DA ÁGUA e O AMERICANO TRANQUILO, responde pelo mais frustrante de todos os segmentos. Cabelereiras orientais, surrealismo, falta de nexo e a presença do diretor Barbet Schroeder (MULHER SOLTEIRA PROCURA) como ator contribuem para o fracasso da empreitada. Definitvamente o único evidente percalço do conjunto.

07. Bastille
A espanhola Isabel Coixet, dos tocantes MINHA VIDA SEM MIM e A VIDA SECRETA DAS PALAVRAS, fala da tentativa de um casal em crise de salvar a relação após descobrirem que a mulher está com câncer. As ótimas atuações de Miranda Richardson (PERDAS E DANOS), irreconhecível, e de Sergio Castellitto (SIMPLESMENTE MARTHA), por si só, já valem a conferida.

08. Place des Victories
O diretor japonês Nobuhiro Suwa joga nos ombros da sempre excelente Juliette Binoche (O PACIENTE INGLÊS) a responsabilidade de nos conduzir pela dor e sofrimento de uma mãe que sofre pela morte recente do filho. Tudo é tão sensível, delicado e bem exposto que nem um Willem Dafoe (HOMEM-ARANHA) como cowboy consegue estragar!

09. Torre Eiffel
Sylvain Chomet, da adorável animação AS BICICLETAS DE BELLEVILLE, nos mostra a história de amor que surge entre dois mímicos. Divertida, terna e muito bem humorada, traz um pouco de luz após o baque dramático do episódio anterior.

10. Parc Monceau
O mexicano Alfonso Cuarón (E SUA MÃE TAMBÉM) continua explorando as possiblidades de um plano-seqüência, muito bem exemplificadas no seu último filme, FILHOS DA ESPERANÇA, neste encontro de um pai (Nick Nolte, de HULK) com sua filha adolescente (Ludivine Sagnier, de 8 MULHERES). Curioso.

11. Quartier des Enfants Rouges
O diretor francês Oliver Assayas (CLEAN, ALICE & MARTIN) esfria as emoções nesta análise distante sobre o relacionamento que poderá surgir (ou não) entre uma atriz norte-americana (Maggie Gyllenhaal, de SECRETÁRIA) e o rapaz que lhe irá conseguir a droga que está buscando.

12. Place des Fêtes
O sul-africano Oliver Schmitz, apesar de até então só ter trabalhado em televisão, entrega o mais emocionante e triste de todos os episódios. Impossível não se comover com o amor que surge entre uma paramédica e um emigrante esfaqueado em praça pública. Nem sempre a pessoa pela qual esperamos toda uma vida chega à tempo para podermos desfrutar da companhia dela, mas ao menos estes dois protagonistas conseguiram cruzar seus olhares, nem que por meros segundos. Extremamente romântico, chocante e muito bem construído, traz esperança e desespero na mesma medida. Uma obra-prima!

13. Pigalle
Assim como "Bastille", esse aqui também vale de antemão já pelos protagonistas, a fabulosa Fanny Ardant (CALLAS FOREVER) e o divertido Bob Hoskins (MONA LISA). Com direção do norte-americano Richard Lagravenese (FREEDOM WRITERS), é uma interessante abordagem sobre a redescoberta do amor durante a maturidade, tendo à frente um casal que inventa um jogo particular para manter acesa a paixão entre eles no bairro mais sexual de Paris. Provoca a curiosidade do espectador ao mesmo tempo que brinca com a nossa própria inteligência. Muito bom!

14. Quartier de la Madeleine
O diretor e roteirista Vincenzo Natali não esconde seu passado de diretor de arte no mais visualmente interessante de todos os episódios, nesta trama de vampiros e turistas desavisados que atrai mais pela aparência do que pelo conteúdo. Mesmo assim, é uma brincadeira curiosa. Como protagonista, Elijah Wood (O SENHOR DOS ANÉIS).

15. Père-Lachaise
O diretor Wes Craven (A HORA DO PESADELO, PÂNICO) deixa de lado seu passado de monstros e assassinos para mostrar os humores que conduzem um casal (Rufus Sewell, de O ILUSIONISTA, e Emily Mortimer, de MATCH POINT) pelos corredores do popular cemitério do título. O roteiro muito bem elaborado, os diálogos marcantes e uma aparição do cineasta Alexander Payne como o escritor Oscar Wilde fazem deste, surpreendemente, um dos melhores do conjunto. Um feito e tanto!

16. Fauborg Saint-Denis
O alemão Tom Tykwer (CORRA, LOLA, CORRA e O PERFUME) tem a ótima Natalie Portman (CLOSER - PERTO DEMAIS) como protagonista de um amor que surge entre uma atriz iniciante e um jovem cego. A montagem instigante e o desenrolar da ação garantem o interesse do espectador, nesta trama que combina juventude, surpresas e uma ótima conclusão.

17. Quartier Latin
O astro francês Gerard Depardieu faz uma das suas raras aparições como diretor (ele também interpreta um personagem codjuvante), ao lado do colega Frédéric Auburtin. Os dois mostram como é difícil apagar a chama da paixão mesmo após anos de relação, de sofrimentos mútuos e outros constrangimentos. Os veteranos Ben Gazarra (DOGVILLE) e Gena Rowlands (DIÁRIO DE UMA PAIXÃO) conduzem um diálogo ferino, que esconde feridas não cicatrizadas e um carinho que transcende aparências. Muito bonito.

18. 14º Arrondissement
PARIS, TE AMO encerra com chave de ouro com a paixão que faltava: a pela própria cidade! Alexander Payne (SIDEWAYS, AS CONFISSÕES DE SCHMIDT) mostra uma turista norte-americana narrando seus passeios solitários pela capital francesa. É triste e comovente, tocante e melancólico, mas ainda assim muito bem-humorado e sensível. O roteiro é genial, e a interpretação de Margo Martindale (MENINA DE OURO) impressiona pela simplicidade. Fantástico!

Apesar de propositalmente fragmentado, como uma colcha de retalhos construída em momentos, intenções e situações específicas e distintas entre si, PARIS, TE AMO comprova que a multiplicidade desta criação coletiva consegue ser superior à soma de suas partes separadas. Uma visão global de uma das cidades mais lindas do mundo, que tem o mérito de fugir das obviedades - não vá esperando um passeio turístico pelas ruas e pontos turísticos parisienses - apostando em sentimentos universais e facilmente identificáveis. Simplesmente genial!

Paris, Je T'Aime, França/Alemanha/Suíça/Lichtenstein, 2006
(nota 10)


quarta-feira, julho 11, 2007

HARRY POTTER E A ORDEM DA FÊNIX

Quando O PRISIONEIRO DE AZKABAN estreou, em 2004, a crítica foi unânime em afirmar que a saída do diretor Chris Columbus, que havia comandado os dois primeiros filmes da série (A PEDRA FILOSOFAL, de 2001, e A CÂMARA SECRETA, de 2002) tinha sido positiva, pois finalmente um "autor" assumiria as transposições dos romances da autora J.K.Rowling para a tela grande - no caso, o mexicano Alfonso Cuarón, recém saído do premiado E SUA MÃE TAMBÉM e que recentemente esteve de volta com o subestimado FILHOS DA ESPERANÇA. E o comentário geral sobre o terceiro filme era que haviam acabado as aventuras infantis e que a trama finalmente assumia um aspecto mais sério, dramático e perturbador. Mas essa não é uma característica específica deste filme ou dos seguintes: é, sim, da própria trama básica e de seus personagens. Afinal, o protagonista é um menino que sobreviveu a um ataque mortal contra os próprios pais e que traz marcado na testa esta tragédia. E, desde o princípio, ficou claro que este vilão estaria voltando, se recuperando, e que os acontecimentos futuros ficariam cada vez mais soturnos e assustadores. E se O CÁLICE DE FOGO, de 2005, intensificou este sentimento, o novo A ORDEM DA FÊNIX elimina de vez qualquer dúvida, comprovando porque HARRY POTTER é uma das sagas cinematográficas mais elaboradas, bem cuidadas e interessantes do atual cinema hollywoodiano.
O cenário apresentado logo no início deste quinto filme não é nem um pouco motivador: após a morte de Cedrigo Diggory no final do longa anterior, a notícia de que o perigoso Lord Voldemort estaria de volta foi espalhada por Harry e Dumbledore, diretor da Escola Hogwarts. Mas o Ministro da Magia duvida da informação, por razões políticas, e faz de tudo para desacreditá-los publicamente. O que acontece é que ninguém no mundo mágico se prepara para os tempos nebulosos que estão por vir, e tudo piora quando as aulas recomeçam. O Ministério envia a subsecretária Dolores Umbridge para assumir como professora e voz do governo dentro da instituição. A interferência dela será gradativamente maior, a ponto de destituir outros mestres e até mesmo Dumbledore. Além de se preocuparem com seus futuros pessoais, Potter a amigos terão que lidar com uma situação completamente adversa num lugar que até então lhes era um porto seguro.
David Yates, o diretor, estréia com este projeto na tela grande - até então havia trabalhado apenas na televisão. E, assim como Columbus, é um competente executor de ordens, mas está longe de apresentar uma visão original e inventiva a respeito da trama que se dispõe a narrar. O que vemos, portanto, é uma apressada sucessão de eventos, muitos deles desconexos entre si, que fazem mais sentido para aqueles já familiarizados com o contexto literário. Aliás, A ORDEM DA FÊNIX é o maior e todos os livros (cerca de 700 páginas), e o mais curto dos filmes (enxutos 138 minutos). Resultado? Muita coisa ficou de fora, mantendo apenas o essencial do enredo principal. Claro que o trabalho de adaptação é primordial, e a grande maioria dos fatos é bastante compreensível, mas é quase impossível deixar de lamentar a falta de passagens muito interessantes apresentadas na obra literária. Se ao menos servir para aumentar a curiosidade sobre o livro, já terá valido a pena!
Diferente de outros blockbusters deste ano, como os terceiros episódios de HOMEM-ARANHA, PIRATAS DO CARIBE e SHREK, HARRY POTTER chega agora ao quinto filme ainda trazendo consigo novidades e comovendo tanto fãs quanto curiosos. Se até a metade tudo se desenvolve com uma certa pressa, mais para o término o longa finalmente revela seus méritos, em uma conclusão absolutamente fantástica, envolvente e dramaticamente precisa. O espectador fica na ponta da cadeira, torcendo por cada nova reviravolta ou acontecimento. É, sem sombra de dúvidas, o melhor dos "filmes de verão 2007", destes fenômenos de público da temporada. Mesmo não sendo superior às duas aventuras anteriores, mantém em alta a série.
Os parabéns se devem principalmente aos produtores, que conduzem cada novo episódio com um olhar bem direcionado a respeito do que buscam e do que esperam conseguir, e dos atores, todos em ótima forma, desde o trio juvenil Daniel Radcliffe - Emma Watson - Rupert Grint (Harry, Hermione e Rony) até o elenco adulto, em destaque para a novata neste universo Imelda Staunton (O SEGREDO DE VERA DRAKE) e para o cada vez melhor Michael Gambon, além, é claro, das ótimas participações de Ralph Fiennes, Emma Thompson, Maggie Smith, Alan Rickman, Helena Bonham-Carter, Gary Oldman, David Thewlis, Jason Isaacs, Robbie Coltrane, Fiona Shaw e Julie Walters (ufa!). A cada instante uma nova surpresa, um novo deslumbre, mais um encanto. HARRY POTTER E A ORDEM DA FÊNIX é perfeito em praticamente todos os propósitos a que se dedica, mesmo sendo nitidamente um produto calculado para dar certo em todos estes mesmos quesitos. É entretenimento básico, honesto e competente. Sorte nossa que ainda restam dois livros!

Harry Potter and the Order of the Phoenix, EUA/Reino Unido, 2007
(nota 8,5)

terça-feira, julho 10, 2007

RATATOUILLE

Em uma entrevista recente, o diretor Brad Bird relatou as idéias que surgiram em uma das primeiras reuniões que tiveram no início da Pixar Animation, num brainstorm para futuros projetos de longas-metragens: bonecos que ganhavam vida quando o dono os deixavam sozinhos, o mundo fantásticos dos insetos, monstros da imaginação infantil e... um ratinho que sonhava em ser chef de cozinha! Se os primeiros deram certo e geraram ótimos filmes - TOY STORY, VIDA DE INSETO, MONSTROS S.A. - por quê o último não funcionaria também? O resultado vemos agora: RATATOUILLE é igualmente um sucesso de público e de crítica, mas evidencia além da técnica os motivos que causaram tanta hesitação entre seus criadores.
A trama de RATATOUILLE é muito simples: um ratinho, cinza, feio e peludo, está cansado de viver no lixo e sonha em ir para Paris e descobrir todos os sabores existentes no lugar com a melhor culinária do mundo! Bem ou mal ele acaba chegando lá, formando por acaso parceria com um aprendiz de cozinha desastrado. Tudo o que o rato sabe, o garoto desconhece. Juntos, porém, acabam fazendo fama e devolvendo o restaurante em que atuam a antiga popularidade. Outros elementos, como a saudade e lealdade perante à família (o pai, o irmão e os demais amigos acabam ficando para trás quando o protagonista decide virar cozinheiro), honestidade (quem é o verdadeiro dono do negócio?) e até crítica (culinária e, por quê não afirmar, artística em geral) são debatidos em cena. Ganha, com esta diversidade, o espectador adulto. Por outro lado, os mais baixinhos talvez se cansem um pouco.
Essa nova produção da Pixar ao lado dos Estúdios Disney é menos movimentada que os filmes anteriores da casa, principalmente do que o primeiro longa do diretor - OS INCRÍVEIS, de 2004. Por outro lado, o desenvolvimento intelectual da história é mais fundamentado, deixando de lado reviravoltas previsíveis e personagens unidimensionais em favor de uma estrutura mais orgânica, dinâmica e consciente. As motivações são todas muito bem exploradas, nada é raso, e até o mais cego dos vilões tem suas razões justificadas. Neste meio tempo, sobra um olhar mais ácido em relação àqueles que deturpam à arte em nome de um "bem maior" e neste processo acabam esquecendo dos seus objetivos primordiais: entreter, educar e gerar prazer.
Entretanto, nem tudo é "ouro" em RATATOUILLE. Se os méritos da obra são diversos, há também alguns problemas estruturais difíceis de ignorar. E o mais básico de todos é evidente: como deixar de lado o fato de que se está falando de um rato invadindo a cozinha e tratando com alimentos? Mesmo atento a detalhes como "as mãos devem estar sempre limpas", é particularmente complicado quando presenciamos um exército de roedores preparando um banquete. As mensagens de que todo sonho é possível se acreditarmos o suficiente, de que unidos vamos mais longe e de que os valores éticos e morais se trazem de casa são muito bonitas, necessárias e pertinentes no contexto global em que vivemos, mas bem que aqueles que aqui a ilustram - e isso não é uma apologia ao politicamente correto, por favor! - poderiam ser mais, digamos, palatáveis!

Ratatouille, EUA, 2007
(nota 8)

segunda-feira, julho 09, 2007

QUARTETO FANTÁSTICO E O SURFISTA PRATEADO

As adaptações cinematográficas dos heróis em quadrinhos da Marvel, até pouco tempo, estavam dividadas entre as produções do primeiro time (HOMEM-ARANHA, X-MEN) e as do segundo escalão (BLADE, ELEKTRA). Foi há pouco tempo que se descobriu uma via intermediária, que combinasse um investimento considerável no orçamento para efeitos especiais e outros cuidados técnicos, ao mesmo tempo que se cuidasse razoavelmente do roteiro e do elenco, formado não por estrelas, mas por atores minimamente competentes. O primeiro a ir por esta linha foi DEMOLIDOR, de 2003. Mas a produção que provou que ela poderia dar certo veio dois anos depois: QUARTETO FANTÁSTICO, que custou US$ 100 milhões e arrecadou no mundo todo mais do que três vezes este valor. Natural, portanto, que viesse logo em seguida uma continuação, e ela chega agora, atendendo pelo nome de QUARTETO FANTÁSTICO E O SURFISTA PRATEADO.
Sim, porque este novo filme é mais do que um "episódio 2". Dá, sim, seqüência aos eventos narrados no longa anterior com os quatro personagens que, após um acidente solar, desenvolvem exóticos poderes: um é elástico (Reed Richards, o Sr. Fantástico), um pode inflamar o próprio corpo (Johnny Storm, o Tocha Humana), um tem a pele de pedra (Ben Grimm, O Coisa) e, por fim, ela, que fica transparente e emite campos de força (Susan Storm, a Mulher Invisível). E, além de estarem unidos nesta nova condição, tem em comum o fato de formarem uma família: Ben é o melhor amigo de Reed, namorado de Susan, irmã de Johnny! O diferencial está na inclusão de um novo, e enigmático, visitante: o Surfista Prateado!
Herói ou vilão? Está é a dúvida que ronda os protagonistas em relação ao extra-terrestre que chegou ao nosso planeta montado numa prancha de surf cósmica. Assim como nas hq's, ele não é nem um, nem outro: está apenas sondando nosso planeta, condenado a servir ao monstruoso Galactus, um ser que se alimenta da energia de planetas inteiros. O que o Quarteto precisará fazer será convencer o Surfista e levar Galactus a um outro lugar, ao mesmo tempo que tentarão livrá-lo desta maléfica influência. Isso sem falar dos problemas gerados pelo sempre inconveniente Dr. Destino, o inimigo visto na aventura anterior e que volta disposto a conquistar os misteriosos poderes do alienígena.
QUARTETO FANTÁSTICO E O SURFISTA PRATEADO ganha pontos em relação ao primeiro filme em vários quesitos: a trama é mais séria, o humor é mais contido, e os efeitos especiais estão melhor dispostos durante a trama. Continua, sim, sendo uma aventura para toda a família, mas os perigos estão numa nova escala, mais assustadora. Desta vez o mundo inteiro está em perigo, e as conseqüências e responsabilidades dos heróis serão postas à prova com mais intensidade e realismo. O filme deixa de ser tão "colorida" (em todos os sentidos), para se aproximar de uma reflexão sobre os destinos da humanidade e pelo que vale, mesmo, a pena lutar em busca da preservação.
O diretor Tim Story continua sendo dotado de poucas luzes, porém não chega a atrapalhar. Cumpre bem o que lhe é destinado, sem originalidade, mas também sem comprometer. No elenco principal, se Ioan Gruffudd (REI ARTHUR) é inexpressivo e Michael Chiklis (da série "The Shield") fica praticamente o tempo todo escondido atrás da maquiagem, as esperanças recaem numa confusa Jessica Alba (SIN CITY), indecisa entre ser uma cientista concentrada ou uma loira falsa e gostosa, e um Chris Evans (do recente SUNSHINE - ALERTA SOLAR), evidentemente o mais confortável no papel. No final das contas, acabam todos na média, sem nenhum destaque, mas dentro das expectativas. Afinal este não é um filme de grandes interpretações ou arroubos criativos. Não é ainda aquela trama que uma turma como o Quarteto Fantástico - ainda mais ao lado do filosófico Surfista Prateado - merecia, mas mesmo assim é um passo adiante. Quem sabe no próximo, talvez enfrentando uma realeza como Namor, o Príncipe Submarino, as coisas não esquentem de vez? O que nos resta é torcer e esperar, e neste meio tempo, se divertir um pouco. Afinal, cinema também é para isso, não?

Fantastic Four: Rise of the Silver Surfer, EUA, 2007
(nota 8)

quinta-feira, junho 21, 2007

TREZE HOMENS E UM NOVO SEGREDO

Finalmente a "Temporada dos Três" mostrou a que veio. Sim, porque não há quem não negue que os terceiros HOMEM-ARANHA e PIRATAS DO CARIBE foram enormes decepções, enquanto que SHREK TERCEIRO até divertiu, mas que ainda assim foi o mais fraco da trilogia. Felizmente isso não se repetiu na franquia comandada por Steven Soderbergh (diretor oscarizado por TRAFFIC, 2000) e estrelada por um dos mais impressionantes elencos já reunidos em Hollywood: George Clooney, Brad Pitt, Matt Damon, Andy Garcia, Don Cheadle (indicado ao Oscar por HOTEL RWANDA), Bernie Mac (AS PANTERAS DETONANDO), Elliott Gould (o pai de Monica e Ross no seriado "Friends"), Casey Affleck (irmão de Ben Affleck), Scott Caan (filho de James Caan) e Carl Reiner (famoso diretor de televisão, vencedor de 5 Emmys), entre outros tantos. TREZE HOMENS E UM NOVO SEGREDO não só é muito superior ao anterior, DOZE HOMENS E UM OUTRO SEGREDO (que até tinha seus momentos divertidos, mas decepcionava numa avaliação geral), como se sai bem até em comparação ao primeiro da série, ONZE HOMENS E UM SEGREDO, que já tinha ido muito bem tanto em relação à crítica quanto junto ao público (quase US$ 200 milhões nas bilheterias só nos EUA)!
E não é pouca coisa ser apontado com o melhor dos três, ainda mais depois de tantos terem se apressado em declarar o fim da série após o tímido desempenho do segundo filme. O melhor de TREZE HOMENS é que ele vai além de um retorno às origens: é humilde o suficiente em se satisfazer apenas com o mais simples, com o básico, e dentro do que propõe se apresenta como uma obra
impecável de entretenimento.
A trama de TREZE HOMENS E UM NOVO SEGREDO é sobre um roubo de um cassino. Fica para trás as aventuras européis rocambolescas de DOZE HOMENS e as trapalhadas amorosas de ONZE HOMENS: o que interessa, agora, é a pura e imediata vingança, o golpe bem dado e todos os elementos do plano funcionando à contento. E quem ganha com isso é o espectador, que fica atento a cada movimento ou nova situação.
Um dos "onze" homens de Danny Ocean (Clooney), Reuben (Gould), é passado para trás por um outro negociante, Willy Bank (o grande adendo do elenco, um Al Pacino em ótima forma, que parece estar se divertindo tanto quanto os outros). Isto ocorrido, os demais se unem para vingar o amigo. Pronto, e é exatamente o que acontece, sem mais, nem menos, sem surpresas de última hora (claro que estas existem, mas para acrescentar dentro de um contexto, e não para distrair originando algo novo e diverso) ou reviravoltas forjadas.
Um ponto importante, presente com ainda mais força, é o bom humor. Piadas internas (Clooney recomendando que Pitt deveria se casar e ter filhos, referência ao casamento do ator com Angelina Jolie e aos vários filhos que os dois têm, adotados ou não), reencontros marcantes (Pacino e Ellen Barkin novamente juntos, dezoito anos depois de VÍTIMAS DE UMA PAIXÃO), comentários de outros filmes (Pitt recomendando que Clooney perca a barriga, a que o ator teria ganho para fazer SYRIANA, o nariz falso de Damon que deveria ter aparecido em OS IRMÃOS GRIMM) e até mesmo a ausência das estrelas Julia Roberts e Catherine Zeta-Jones contribuem para termos um filme mais enxuto, conciso em sua proposta e mais bem sucedido dramaticamente. E se você não der boas risadas nem mesmo com a participação de Oprah Winfrey, então é porque não entende nada de cultura pop!
TREZE HOMENS E UM NOVO SEGREDO não chega a ser um blockbuster, mas está indo bem de público e crítica. Ficou em primeiro lugar nas bilheterias norte-americanas quando estreou, com quase US$ 40 milhões arrecadados no final de semana. Um bom resultado, que certamente irá ajudar a melhorar a imagem da saga entre os que duvidam da força do projeto. E que venha QUATORZE HOMENS E UM SEGREDO AINDA MELHOR o quanto antes!

Ocean's Thirteen, EUA, 2007
(nota 9)


terça-feira, junho 19, 2007

SHREK TERCEIRO

O primeiro, "Shrek", de 2001, ganhou o primeiro Oscar entregue na até então inédita categoria de Melhor Longa de Animação. O segundo, "Shrek 2", de 2004, não só foi também indicado como acabou ganhando a estatueta dourada de Melhor Trilha Sonora. Isso sem falar que é o desenho animado de maior bilheteria da história, tendo arrecadado só nos Estados Unidos mais de 436 milhões de dólares! Dados difíceis de serem superados, não? Pois bem, "Shrek Terceiro" provavelmente não alcançará as mesmas marcas, mas tem qualidades suficientes para garantir uma colocação especial em nossas memórias.
Sem a inovação do primeiro ou o sarcasmo do segundo, este "Terceiro" consegue escapar de ser "mais do mesmo" pela sábia decisão dos roteiristas em apostar nas novidades. Ou seja, todo mundo já tinha em mente o que esperar o ogro Shrek, do Burro ou do Gato de Botas (que parecem até serem coadjuvantes do próprio filme!). Então, optou-se por mais espaço para aqueles que sempre tiveram uma participação discreta - as demais princesas dos contos-de-fada (Branca De Neve, Rapunzel, Bela Adormecida e Cinderella) e os temidos vilões (Capitão Gancho, Bruxa Malvada e, claro, o hilariante Príncipe Encantado). Isso garante a diversão do filme, porém sem aquele olhar das aventuras anteriores, que enfatizava a crítica e o deboche.
A trama de "Shrek Terceiro" é bastante simples. O pai de Fiona, o rei de Tão, Tão Distante, morre, deixando o trono vago. O primeiro na linha de sucessão seria Shrek, que recusa a tarefa. Mas para se livrar, tem que encontrar outro que assuma o posto. E o próximo da lista é um primo distante, Artie - ou, como viria a ser conhecido, Artur. Enquanto Shrek, Burro e Gato de Botas estão ausentes, envolvidos na missão de encontrar o rapaz, o Príncipe Encantado arma um plano para tomar posse do Reino, com a ajuda de todos os vilões dos contos-de-fada. Fiona e as demais princesas é que terão que se unir para defender a paz local.
Outro viés interessante que o enredo propõe é como os protagonistas enfrentam a maturidade . O Burro já é pai, com vários filhotes, enquanto que Shrek tem que lidar com a possibilidade de um novo emprego (ser ou não rei) e a futura paternidade. Família, trabalho, segurança. Temas adultos demais para um longa aparentemente destinado ao público infantil. E que no final acabam pesando decisivamente: sim, os pequenos irão se divertir, mas a reflexão provocada nos mais velhos dessa vez entra em conflito com a diversão despreocupada. O que, se por um lado é bom, já que fornece material para análise e discussão, por outro ofusca o entretenimento por si só.
"Shrek Terceiro" marca a estréia na direção de Chris Miller, roteirista dos dois primeiros filmes e que trabalhou como animador em "Madagascar". Ele pode não ser tão original quanto Andrew Adamson (diretor de "Shrek 1" e "2", que agora aparece somente como produtor executivo, enquanto assume a série de fantasia "As Crônicas de Nárnia"), mas é um bom executor, dando continuidade com competência a este mundo tão divertido e encantador. E no time de vozes originais, Antonio Banderas (Gato de Botas) e Eddie Murphy (Burro) continuam proporcionando um show à parte, enquanto que Mike Myers (Shrek), Cameron Diaz (Fiona), Rupert Everett (Príncipe Encantado) e Julie Andrews (Rainha) seguem a mesma linha já conhecida. A novidade ficou por conta da inclusão do astro pop Justin Timberlake (Artur), cada vez mais investindo na carreira cinematográfica. Porém, o desempenho vocal é um "mimo" oferecido somente aos mais antenados. Outra prova de que, em seu terceiro capítulo, "Shrek" se confirma, definitivamente, como o mais bem sucedido exemplo de animação adulta. Uma explosão de exageros que guarda, no final das contas, seus mais raros e preciosos presentes no menores, e muitas vezes desapercebidos, detalhes.

Shrek The Third, EUA, 2007
(nota 7,5)

quarta-feira, junho 06, 2007

CONFIDENCIAL

Talvez você tenha a seguinte sensação ao assistir CONFIDENCIAL: "já vi isso antes...". Bem, este sentimento não será totalmente despropositado, afinal a trama é exatamente a mesma de CAPOTE, longa de 2005 que deu o Oscar de Melhor Ator para Phillip Seymor Hoffman. Mas isso não significa que este novo filme não mereça ser visto - na verdade, é mais um estímulo, no sentido de compará-los para descobrir que, no fundo, ambos possuem méritos próprios que os justifiquem independente um do outro.
Na pele do escritor Truman Capote, autor de "Bonequinha de Luxo", dessa vez está o praticamente desconhecido Toby Jones (que havia aparecido em pequenos papéis em SENHORA HENDERSON APRESENTA e EM BUSCA DA TERRA DO NUNCA, além de ter sido a voz do elfo Dobby em HARRY POTTER E A CÃMARA SECRETA). A pouca familiaridade que temos com ele colabora na personificação do famoso escritor: por alguns instantes, nos indagamos se não estamos diante de uma reencarnação de Capote, tamanha a perfeição da interpretação. O que a difere da atuação de Phillip são os detalhes: enquanto este procurava algo minimalista e casual, Jones investe na afetação e nos trejeitos mais exagerados, marcando de vez sua visão do personagem. E esta orientação se reflete em todo o filme: se em CAPOTE tudo era mais sóbrio e reflexivo, CONFIDENCIAL aposta nas emoções e, principalmente, nas reações dos envolvidos em ambos os lados da tela.
A estrutura da trama é praticamente a mesma: o processo de investigação de Truman Capote sobre o assassinato de toda uma família no interior do Texas. Este material acabou rendendo o livro mais marcante dele, "À Sangue Frio". Truman e sua amiga Harper Lee (uma composição surpreendente de Sandra Bullock, no melhor desempenho de toda a carreira dela) saem do mundo cosmopolita de Nova York e decidem se aprofundar naquele universo tão distante e, ao mesmo tempo, tão curioso e específico. Dirigido por Douglas McGrath, o mesmo de EMMA (1996) e NICHOLAS NICKLEBY (2002), o filme deixa bem claro duas facetas do protagonista: se por um lado era um profissional genial e obstinado, por outro era também uma pessoa ligada nos pequenos defeitos da alma humana, como fofocas, invejas, intrigas e dissimulações. Poucos gostariam de ser como ele, mas por outro lado é quase impossível não se interessar por uma personalidade tão intrigante e hipnótica.
Outro ponto que desperta atenção em CONFIDENCIAL é a impressionante quantidade de participações especiais que o filme apresenta. Gwyneth Paltrow, Sigourney Weaver, Hope Davis, Juliet Stevenson, Isabella Rosselini, Peter Bogdanovich e Jeff Daniels fazem rápidas aparições, porém enriquecendo a obra inestimavelmente. O único de todo o elenco, no entanto, à altura do protagonista é Daniel Craig (007 - CASSINO ROYALE), como um dos assassinos. Ele emprega uma verossimilhança e uma determinação que estabelecem um confronto que chega a mexer com os nervos do público. A relação entre Craig e Jones é um dos pontos altos do filme.
Talvez CONFIDENCIAL não seja tão elegante e inteligente quanto CAPOTE, por exemplo. Mas é uma produção que envolve o espectador e incita a curiosidade em relação ao que é narrado. Melhor ou pior, é difícil dizer. O mais certo, mesmo, é que é diferente na medida certa e tão competente quanto, considerando-se que ambos possuem diretrizes distintas. O problema deste segundo é que, como veio depois, infelizmente estará destinado a ficar na sombra do anterior. Um destino certamente imerecido.

Infamous, EUA, 2006
(nota 8,5)