skip to main |
skip to sidebar
A idéia de um longa-metragem com Os Simpsons, adaptando para a tela grande os personagens que há quase duas décadas reinam absolutos na telinha como uma das mais inteligentes, populares e sarcásticas animações para adultos e crianças dos 8 aos 80 anos, era, no mínimo, uma aposta arriscada. Afinal, por quê levar para outra mídia algo que já tinha sucesso comprovado num campo específico? Mas, como no mundo do entretenimento global a palavra de ordem é a "interação", as múltiplas associações possíveis para aumentar o potencial de todo produto bem sucedido, essa transposição era quase inevitável. O bom, portanto, é notar que ela foi feita com o menor ruído possível, e o resultado é tão bom quanto um dos melhores episódios da série na televisão.
Aliás, OS SIMPSONS, O FILME nada mais é do que um destes episódios, digamos, "vitaminado" - o que, por sinal, só conta a favor! Assim, os melhores elementos do seriado são potencializados. A trama começa com uma aposta estúpida entre Homer (o pai) e Bart (o filho) que termina com o mais velho adotando um porco como animal de estimação. Apesar dos protestos de Lisa (a filha) e da promessa que fez à Marge (a esposa), ele acaba jogando as sujeiras do bicho no lago municipal, causando um desastre ecológico. Para conter o problema o presidente Arnold Schwarzenegger, por meio de um assessor muito mal intencionado, decide isolar a cidade de Springfield numa redoma de vidro. A família Simpson consegue fugir antes de ser linchada, foge para o Alasca e no final retorna, salvando todos de uma tragédia ainda maior!
Apesar de orçado em US$ 75 milhões, as previsões iniciais dos analistas especializados imaginavam uma arrecadação nos cinemas norte-americanos em torno de US$ 60 milhões (sem contar o mercado de dvd e os demais países). Pois bem, em cerca de dois meses em cartaz OS SIMPSONS, O FILME já arrecadou quase US$ 200 milhões só nos Estados Unidos e cerca de US$ 500 milhões em todo o mundo! Isso dá uma noção de que, mesmo após 18 anos no ar, tem muita gente disposta a pagar ingresso para assistir a algo que "passa todos os dias de graça na tv" (como ironicamente afirma uma das primeiras piadas do filme).
Isso sem falar do excelente retorno da crítica (88% de aprovação no Rotten Tomatoes), que aponta principalmente a fidelidade da adaptação ao espírito original da série. É mais do mesmo? É, sim. Mas qual o problema disso? Se a matéria prima é boa, o conselho é aproveitar ao máximo esta nova aventura, que dá mais espaço a alguns personagens secundários (Flanders, por exemplo), explora melhor as relações familiares entre os Simpsons (o que cada membro pensa sobre o outro nunca havia ficado tão claro) e ainda consegue oferecer novidades e ousadias, como a nudez de Bart e as participações de Tom Hanks e da banda Green Day. OS SIMPSONS, O FILME entrega ao público justamente o que promete - e já tá mais do que bom!
The Simpsons Movie, EUA, 2007
(nota 8,5)
Chega a ser impressionante como tanta coisa pode dar errada em INESQUECÍVEL! Isso porque estamos falando de uma trama aparentemente comum aos cinéfilos e cineastas nacionais - o triângulo amoroso, vide o clássico DONA FLOR E SEUS DOIS MARIDOS ou o recente PRIMO BASÍLIO - e de um elenco minimamente competente, além de outros requisitos técnicos de destaque, como o roteirista e a produtora. Mas, sob o comando de Paulo Sérgio de Almeida, tudo combinado se põe diante o público como um dos maiores desastres da cinematografia brasileira recente, um produto previsível e constrangedor que afunda vergonhosamente em suas próprias ambições.INESQUECÍVEL é dividido em três atos, cada um com aproximadamente 30 minutos de duração. O primeiro - o mais bem sucedido de todos - se passa em Buenos Aires e mostra o amor fulminante que surge entre o fotógrafo Guilherme (Caco Ciocler, perdido e sem direção) e a estilista e ex-modelo Laura (a esforçada estreante Guilhermina Guinle, incrivelmente a melhor do trio protagonista). Ela vai numa exposição dele, em seguida estão um na cama do outro e quando se percebe ela está num avião de volta para o Brasil e ele, desesperado, partindo em sua busca. Os dois voltam a se reecontrar no Rio de Janeiro, já na segunda etapa da história - quando as coincidências, e absurdos, começam a se proliferar: ela está de casamento marcado com o ator Diego (Murilo Benício, vergonhoso), que é o melhor amigo de Guilherme. Os três estão sempre juntos, e o ciúme do noivo passa a corromper as relações entre eles, até um final trágico. Mas o pior ainda está por vir, numa conclusão que pode ser, na melhor das hipóteses, classificada como risível: um dos vértices do triângulo, mesmo falecido, continua a atormentar a vida dos dois sobreviventes, levando-os praticamente à loucura.Insano mesmo deve ser o espectador que tentar buscar alguma lógica neste embaralhado de referências ao cinema noir, ao suspense psicológico e ao romance como detonador de desgraças. Tudo é muito falso - os cenários, as atuações, os enquadramentos, os acontecimentos - e nada soa natural e convincente. Paulo Sérgio de Almeida, diretor de obras populares como SONHO DE VERÃO (1990), com as Paquitas, e POPSTAR (2000), XUXA E OS DUENDES (2001) e XUXA E OS DUENDES 2 (2002), todos estrelados pela 'rainha dos baixinhos', parece ter levado à sério demais o universo da apresentadora infantil, acreditando que tudo possa ser resolvido como num conto de fadas - ou, no caso, de terror inconsequente. Benício, que já foi considerado um dos melhores atores nacionais de sua geração, com desempenhos elogiados em filmes como OS MATADORES (1997), AMORES POSSÍVEIS (2001) e O HOMEM DO ANO (2003), parece estar empenhado em confirmar que SEUS PROBLEMAS ACABARAM (2006), o filme que ele fez com a turma do Casseta & Planeta, talvez não seja uma exceção em sua carreira. Ele está sempre com a mesma expressão dura, fechada e quase cômica - de tão bizarra! Já o habitualmente interessante Caco Ciocler, de OLGA (2004) e QUASE DOIS IRMÃOS (2004), fica o tempo inteiro na procura por um registro, por uma orientação que nunca chega. Mas nada se compara ao roteiro estapafúrdio e esburacado de Marcos Bernstein, que nunca chega aos pés de seus trabalhos mais conhecidos: CENTRAL DO BRASIL (1998) e O OUTRO LADO DA RUA (2004). O enredo, baseado no conto "O Espectro", de Horácio Quiroga, nunca mostra a que veio e o que pretende, perdido entre dilemas inexistentes e em soluções fáceis e clichês. Nem a mão geralmente firme de Mariza Leão, produtora de sucessos como ZUZU ANGEL (2006) e GUERRA DE CANUDOS (1997) parece ter sido capaz de algum efeito positivo.Com um visual televisivo, nada ousado, que a todo instante revela uma ausência total de criatividade ou planejamento, só nos resta torcer que INESQUECÍVEL cumpra o que o título promete. Dessa forma, talvez sirva de alerta para que outros cineastas nacionais evitem alguns dos desastres aqui muito bem exemplificados.Inesquecível, Brasil, 2007(nota 3)
É complicado saber por onde começar ao falar dos problemas de PRIMO BASÍLIO, oitavo filme dirigido por Daniel Filho e o quinto feito por ele desde a retomada de sua carreira cinematográfica, no início dos anos 2000. Depois de algumas experiências esparsas nos anos 60, 70 e 80 (até filme dos Trapalhões ele dirigiu) e muito trabalho em televisão, com a virada do século decidiu se dedicar exclusivamente à sétima arte. E desde então vem alternando sucessos de público (SE EU FOSSE VOCÊ, 2006), de crítica (A DONA DA HISTÓRIA, 2004) e até um fracasso (MUITO GELO E DOIS DEDOS D'ÁGUA, 2006). Mas, acima de tudo, eram comédias. E PRIMO BASÍLIO aposta noutro caminho, o drama, e o resultado é bastante problemático.Poucos são os que desconhecem a trama de "O Primo Basílio". Baseado no romance do escritor português Eça de Queiroz, foi adaptado há 20 anos numa minissérie da Rede Globo, que tinha Tony Ramos, Giulia Gam, Marcos Paulo e Marília Pêra no elenco principal. Na direção, o mesmo Daniel Filho. Pois agora o que parece é que estas duas décadas fizeram mal para ele, que aparenta ter desaprendido como lidar com a dramaticidade da história. Reynaldo Gianecchini, Debora Falabella, Fábio Assunção e Glória Pires substituem os protagonistas, obviamente elas com um desempenho muito superior ao deles. Mas isso pouco importa no final das contas, já que a direção privilegia sempre o desenrolar atabalhoado do enredo, sem tempo para qualquer respiro, seja do personagem ou mesmo do ator por trás deste.Sai a Lisboa do final do século XIX e no lugar está a São Paulo de 1958. Jorge (Gianecchini) é um engenheiro contratato para trabalhar na construção de Brasília, e por isso precisa viajar, deixando Luísa (Falabella), sua mulher, sozinha. Ela passa a receber a visita do primo Basílio (Assunção), que está de volta à cidade após uma temporada na Europa. Os dois logo se tornam amantes, o que vem a ser descoberto pela empregada Juliana (Pires). Esta, de posse de cartas reveladoras, passa a chantagear a patroa. E a relação que até então existia entre as duas se inverte, dando início ao calvário de uma e da descoberta do paraíso pela outra.Se em A DONA DA HISTÓRIA ou em A PARTILHA (2001) Daniel Filho conseguiu conciliar um argumento de sucesso comprovado com um elenco que reunia talento e apelo popular, esta mesma fórmula revelou-se parcialmente desnecessária em SE EU FOSSE VOCÊ (que, apesar de abusar dos clichês, se tratava de um roteiro original). MUITO GELO foi um alerta, mostrando os perigos de ser tão autoral. A DONA teve 1,2 milhão de espectadores, PARTILHA mais de 2 milhões e SE EU FOSSE VOCÊ quase 3,5! MUITO GELO não chegou aos 500 mil espectadores, número que PRIMO BASÍLIO deve superar com tranquilidade. Mesmo assim não deve registrar nada muito superior. Gianecchini e Assunção são lindos, assim como Falabella, mas isso não basta, certo? Afinal, quem já não os viu seminus na telinha? E Glorinha, de quem se esperava uma grande atuação, passa o tempo todo limitada pela peruca, maquiagem pesada e figurino apertado. Com enquadramento muito pouco criativo, edição convencional, cenário pobre e efeitos visuais constrangedores (o que são as cenas da cidade antiga?), PRIMO BASÍLIO abusa ainda do voyerismo (o sexo entre Assunção e Falabella é tão abusivo que perde o sentido inclusive dentro da proposta cinematográfica) e da falta de controle dos atores: Falabella, a melhor em cena, está sempre no limite, carecendo de uma orientação mais precisa. O que resta é uma obra sem fôlego, previsível desde a primeira cena e que tem uma conclusão absurda, inverossímil diante a nossa realidade. Um desastre anunciado, que somente se confirma com pior desdém a cada fotograma.Primo Basílio, Brasil, 2007(nota 3,5)
Bruce Willis é um cara legal. Não que alguém tenha alguma dúvida disso. Ele se tornou conhecido através de uma série de televisão ("A Gata e o Rato", que durou de 1985 a 1989) e estourou definitivamente nos cinemas em 1988, com o primeiro DURO DE MATAR. Desde então fez comédias (A MORTE LHE CAI BEM, 1992), romances (A HISTÓRIA DE NÓS DOIS, 1999), suspenses (A COR DA NOITE, 1994), ficções científicas (O QUINTO ELEMENTO, 1997), aventuras (O CHACAL, 1997), superproduções (ARMAGEDDON, 1998), filmes cultuados (PULP FICTION, 1994), campeões de bilheteria (O SEXTO SENTIDO, 1999) e fracassos (HUDSON HAWK, 1991). Já foi protagonista, marcou presença em elencos múltiplos (SIN CITY, 2005), fez pequenas participações em projetos de amigos (AS PANTERAS DETONANDO, 2003, e DOZE HOMENS E UM OUTRO SEGREDO, 2004) e até mostrou seu talento de dublador (OLHA QUEM ESTÁ FALANDO, 1989), além de ter aparecido em outras séries de tv, como "Friends", "That 70's Show" e "Ally McBeal". Na vida familiar, continua amigo da ex-esposa, Demi Moore, depois de uma separação super tranqüila, e sai para férias em família na companhia dela e do novo marido, o ator Ashton Kutcher. Então como não ficar feliz em conferir esse grande cara de volta ao papel que maior sucesso lhe deu? E DURO DE MATAR 4.0 é exatamente isso: Bruce Willis fazendo o que sabe fazer melhor!Se no primeiro filme o agente John McClane (Willis) precisou impedir o ataque a um edifício, no segundo (de 1990) salvou um aeroporto e no terceiro (de 1995) se virou ao avesso para evitar uma tragédia em toda uma cidade, agora o perigo segue esta linha de aumento progressivo e cresce vertiginosamente. O vilão desta vez é um terrorista virtual, que coloca o país inteiro como refém de um ataque combinado, imobilizando todos os recursos de energia, inteligência e até militar dos Estados Unidos em questão de horas. E como um herói conhecido por resolver as coisas "no braço" irá lidar contra um inimigo tão polivalente?A solução se chama Matt, um hacker ameaçado de morte que acaba virando protegido de McClane. Ele, por um desencontro do destino, termina por ser o único capaz de enfrentar a ameaça cibernética e salvar a nação. Mas, para isso, precisará contar com a proteção do policial, que tem outro problema pela frente: salvar a própria filha, seqüestrada pelos bandidos. Interpretado por Justin Long, de A HORA DO RANGO e SEPARADOS PELO CASAMENTO, o rapaz tem tudo para, assim como Shia LeBeouf (TRANSFORMERS), se tornar num dos grandes astros de Hollywood nos próximos anos: tem aparência frágil, porém é engraçado, simpático e bom com as garotas. Ele, ao lado de tiradas impagáveis de Willis, responde pelo lado "leve" do filme, acrescentando bom humor e modernidade a uma trama que pouco tem de original, mas que conquista justamente pela nostalgia e exageros.Se o trailer de DURO DE MATAR 4.0 lhe atraiu, o que posso dizer é que ali estão cenas apenas das primeira meia-hora de filme. Ou seja, tem muito mais pela frente. Assim, logo no início o protagonista consegue derrubar um helicóptero com um automóvel, desviar de dezenas e carros desgovernados no meio de um túnel escuro e salvar sua pele e a do garoto de vários assassinos que estão atirando à queima roupa. Agora, imagine o que ainda está por vir. Ele vai atravessar alguns estados, enfrentar o caos generalizado e lutar com capangas dos mais diversos tipos, gêneros e sexos até ficar frente a frente com o responsável por todo o perigo. E não será uma jornada fácil, pode apostar.São tantos os absurdos e clichês no decorrer da trama que chega um ponto que esquecemos da verossimilhança e queremos apenas alimentar os sentidos. Não é um longa sério, que estimula o pensamento e a reflexão. É mais um pipoca arrasa-quarteirão, feito para grandes massas e de consumo imediato. Mas serve também para mostrar o quão marcante a década de 80 foi para o universo pop. Depois deste retorno e de Sylvester Stallone em ROCKY BALBOA no início do ano, em 2008 nos reencontraremos ainda com o mesmo Stallone, porém em JOHN RAMBO, e com um sessentão Harrison Ford em INDIANA JONES 4. E se o público continua aceitando com alegria este velhos ícones, qual o problema nisso? Bruce Willis fez bem sua parte, mostrando que tem muito fôlego para novos desafios. E daqui pra frente é só aguardar para ver!Live Free or Die Hard, EUA, 2007(nota 7)
O que é preciso para descobrir o verdadeiro "eu" de uma pessoa? Até que ponto nos fechamos tão dentro de nós mesmos que acabamos nos afastando não somente dos outros, mas de tudo mais, inclusive das próprias emoções? Incomunicabilidade, repressão, traumas do passado e a descoberta do amor no mais improvável dos lugares são alguns dos temas tratados no sensível e comovente A VIDA SECRETA DAS PALAVRAS, segundo longa-metragem internacional dirigido pela impressionante cineasta espanhola Isabel Coixet (o anterior foi o igualmente emocionante MINHA VIDA SEM MIM).Uma mulher solitária vive num universo tão particular que esquece até mesmo de reinvindicar suas férias. Obrigada pelo chefe a um mês de descanso, acaba indo parar numa vila afastada e pouco povoada. Lá descobre uma oportunidade de reavivar uma antiga ocupação: enfermagem. Estão precisando de alguém para cuidar de um operário numa plataforma petrolífera no meio do oceano. Ele está cego, vítima de severas queimaduras sofridas durante um acidente. Ao chegar neste lugar ainda mais inóspito, nossa protagonista irá de se deparar com pessoas tão isoladas da vida quando ela mesma. As relações entre os presentes é tão escassa quanto se faz necessária. São como zumbis, abandonados numa terra de ninguém, individualmente ocupados com suas responsabilidades e esquecidos pelo resto da humanidade. Mas o contato está prestes a ganhar um novo valor, alterando toda a ordem até então estabelecida.Se a princípio a convivência entre paciente e atendente revela-se truncada, os códigos de comunicação aos poucos vão se estabelecendo. Ele não consegue vê-la, ela parece estar pouco interessada, mas um jogo vai surgindo e envolvendo-os. Não tardará para a relação evoluir para uma estranha história de amor que, apesar do diferencial que possui, não deixa de possuir elementos em comum a qualquer outro romance: entrega, cobrança, confiança, insegurança, dor e sinceridade. E neste ponto o filme surpreende o espectador pelos novos rumos tomados, em que gestos até então exóticos adquirem novos significados e todo o entendimento do que estava acontecendo fica não só mais claro, mas também dotado de uma intensidade até então insuspeita.Muito do bom resultado atingido por A VIDA SECRETA DAS PALAVRAS está na sua dupla central de atores, a fenomenal Sarah Polley (que já havia trabalhado com a diretora em MINHA VIDA...) e o oscarizado Tim Robbins (SOBRE MENINOS E LOBOS). Os dois fogem do registro óbvio e estereotipado, atuando com o olhar, com pequenos cuidados e tendo completo domínio dos personagens e das emoções que carregam consigo. Você esquece que por trás estão pessoas com outras vidas e histórias: fica-se diante apenas dos protagonistas da trama, como se estivéssemos literalmente dentro do enredo, naquela realidade. Outros bons destaques são alguns coadjuvantes, como o sempre ótimo Javier Cámara (FALE COM ELA, MÁ EDUCAÇÃO, DA CAMA PARA A FAMA), ciente da urgência de um alívio cômico, porém longe do clichê mais fácil, e da igualmente vencedora do Oscar Julie Christie (DARLING, A QUE AMOU DEMAIS, de 1965, vista recentemente em sucessos como EM BUSCA DA TERRA DO NUNCA, TRÓIA e HARRY POTTER E O PRISIONEIRO DE AZKABAN), numa participação carinhosa e fundamental.Isabel Coixet é uma súdita exemplar do mestre Pedro Almodóvar, produtor executivo de A VIDA SECRETA DAS PALAVRAS, longa que foi o grande vencedor dos Prêmios Goya no ano passado. Sem incorrer no exagero, ela consegue falar muito dizendo pouco. As expressões, as atitudes, cada ação em todo momento são de relevâncias singulares, fazendo a maior diferença possível. Pelo que vemos nestes seus dois últimos trabalhos, estes são filmes para serem vistos com atenção e carinho, pois transmitem mais do que um única experiência possa se encarregar. É preciso reflexão, análise e uma compreensão maior do que somos e buscamos. Seja através das palavras, das ações ou mesmo do que não é feito. Pois aqui até o que não está tem importância. E esta lição é o maior mérito da obra como um todo.La Vida Secreta de Las Palabras, Espanha, 2005(nota 8,5)
Jorge Furtado é um cineasta bastante singular dentro do cenário cinematográfico brasileiro. Seus filmes conseguem combinar argumentos pertinentes, crítica social, bom humor e entretenimento, em doses bem equilibradas. SANEAMENTO BÁSICO, O FILME, seu quarto longa, repete o bom resultado. Não chega a ser tão interessante quanto O HOMEM QUE COPIAVA, seu mais bem sucedido projeto, mas ainda assim representa um grande progresso em relação ao simpático HOUVE UMA VEZ DOIS VERÕES ou ao curioso MEU TIO MATOU UM CARA. O importante, entretanto, é perceber que o próprio realizador se deu conta que estava começando a se repetir, e ao invés de se acomodar e seguir com o que estava dando certo, resolveu inovar e mudar as regras do próprio jogo. Desta forma, não há mais um narrador em off dividindo com o espectador os acontecimentos e um único protagonista em busca da garota amada. Só por esta inquietute, Furtado já sai ganhando!Inspirado no arquétipo clássico da commedia dell'arte, SANEAMENTO BÁSICO, O FILME conta com oito personagens principais, todos envolvidos na construção de uma fossa pública na fictícia comunidade de Linha Cristal, no interior do Rio Grande do Sul. O problema é que cada um encara o projeto com um ponto de vista singular, buscando diferentes resultados. E nem sempre estes objetivos serão concordantes com os dos demais.Marina (Fernanda Torres, repetindo a "Vani", de OS NORMAIS) quer a melhoria do saneamento na cidade para que o marido se cure de uma insistente micose. Joaquim (Wagner Moura, discreto) é o marido que deseja se curar e trazer sua vida sexual de volta à normalidade. Os dois vão à prefeitura solicitar dinheiro para a obra, e lá descobrem que a única verba disponível é para a realização de um vídeo de ficção, uma iniciativa do governo federal. Marcela (Janaína Kremer, do inédito AINDA ORANGOTANGOS), a funcionária, tem uma idéia: que tal usar esta grana para solucionar o problema da vila? Para isso, basta gravar uma história, com um roteiro que tenha o mínimo de sentido! O importante, segundo ela, "é não devolver o que já foi liberado!"Silene (Camila Pitanga, ótima), irmã de Marina, topa ser a estrela do filme, e chama o namorado, Fabrício (Bruno Garcia, divertido), para emprestar sua câmera. Ele aceita participar, pois vê uma oportunidade de incrementar o turismo por ali - ele é dono do único hotel da cidade! O envolvimento de todos nas filmagens vai ficando cada vez maior e, com novas responsabilidades, decidem buscar alguém profissional! E encontram Zico (Lázaro Ramos, roubando cada cena em que aparece), um videomaker que vê nesta história sua chance de alcançar sonhos maiores. Paralelo a tudo isso estão os dois velhos, Otaviano (Paulo José, comovente), pai das meninas, e Antonio (Tonico Pereira, repetitivo), o amigo/inimigo ideal. Ambos, com suas rabugices, acabam contribuindo para o sucesso da empreitada.Se há um defeito em SANEAMENTO BÁSICO, O FILME, é a impressão de ter sido feito um tanto às pressas. Há problemas de continuidade (na cena em que Zico e Marina conversam numa lancheria, em cada corte o pastel está num lugar diferente) e de estrutura (a longa seqüência da motocicleta parece estar descontextualizada, além de demasiadamente longa). Isso, no entanto, não chega a afetar no resultado final, que é muito positivo. Repleto de diálogos divertidíssimos, é quase impossível não se envolver com estes "inocentes" que acabam sendo levados pela atração da arte criativa. O problema imediato bate forte nos calcanhares de todos, mas como deixar de lado a imaginação e a fantasia quando esta começa a se fazer presente com uma força até então impensável?A paixão pelo cinema, a política pública de investimentos culturais, a atenção dada pelas autoridades às necessidades básicas e urgentes e a lógica às vezes invertida estabelecida entre corpo (a higiene) e mente (a arte) são alguns dos pontos levantados com inteligência pelo realizador - Furtado é também roteirista. Com um bom desempenho do conjunto do elenco (apesar de seus altos e baixos) e uma trama enxuta, que surpreende pelo inusitado e convence pela simplicidade, é uma produção que tem tudo para conquistar um público fiel e entusiasmado. E, por que não, fazer deste um dos longas nacionais referenciais de 2007!Saneamento Básico, o Filme, Brasil, 2007(nota 7,5)
Antes de mais nada, é bom deixar algo bastante claro: eu odeio Michael Bay! Este é, para mim, um dos piores diretores da Hollywood atual, que representa com exatidão tudo o que há de pior por lá: exageros desnecessários, enredos vazios e histórias tolas e previsíveis. Por isso, quando soube que ele dirigiria a versão para a tela grande do popular brinquedo dos anos 80, TRANSFORMERS, minhas expectativas foram lá embaixo. Após conferir o trailer, o que temia se confirmou: muitas explosões, robôs tecnicamente perfeitos, porém nada atrativos, e uma história aparentemente repleta de clichês. Só que eu estava esquecendo de uma coisa: quem está sentado na cadeira de produtor executivo é ninguém menos do que Steven Spielberg. E, acreditem: isso faz MUITA diferença!TRANSFORMERS é o filme que Spielberg dirigiria caso houvesse tecnologia disponível 20 ou 30 anos atrás. Já que não foi possível, ele aguardou e, como acredita estar numa idade mais "madura" para este tipo de passatempo, deixou a bola para o jovem Bay. Mas não se enganem: a mão do realizador de E.T., OS CAÇADORES DA ARCA PERDIDA e JURASSIC PARK está por todo o longa. A esperança, agora, é de que o responsável pelos irritantes OS BAD BOYS e A ROCHA tenha ao menos aprendido a lição de como combinar diversão de primeira com bom humor em uma trama que não desrespeite a inteligência do espectador.Não que a história narrada em TRANSFORMERS seja muito mirabolante. Pelo contrário, pode ser resumida em uma frase: duas raças de robôs extraterrestres - os "Autobots", do 'bem', e os "Decepticons", do 'mal' - fazem da Terra campo de batalha na busca por um Cubo milenar que pode decidir o futuro do Universo. Pronto, é isso, direto e simples. Alguns humanos acabam no meio da briga - um adolescente que só quer pegar a garota mais gostosa do colégio, um grupo de militares, cientistas e o próprio governo norte-americano. Uma conspiração no estilo "Arquivo X" chega a se desenhar, porém sem muito impacto. Ou seja, não há distração - vai-se logo ao que o público quer, gigantescos alienígenas robóticos destruindo meio mundo enquanto assistimos, confortavelmente, digerindo muita pipoca e refrigerante.Alguns cuidados foram essenciais para o bom resultado do projeto: os roteiristas Alex Kurtzman e Roberto Orci (A LENDA DO ZORRO, MISSÃO IMPOSSÍVEL III) simplificaram a narrativa, porém sem torná-la banal. Conseguimos nos identificar com os personagens de carne e osso, perdidos no meio de um duelo de gigantes. Toda a fotografia do filme é feita sob o ponto de vista humano, o que contribui no nosso sentimento de estarmos, literalmente, dentro do filme - em alguns momentos vemos apenas as pernas dos robôs, em outros a explosão já em andamento! Os efeitos especiais são de primeiríssima linha - cortesia da Industrial Light & Magic, de George Lucas - e, na grande maioria, a ação transcorre em céu aberto, muito bem iluminada e perfeitamente visível. E, acima de tudo, há muito bom humor, ironia e auto-crítica durante todo o desenrolar dos acontecimentos - nenhuma piada é perdida, mantendo alto o astral.Outro elemento que dá muito certo é a aposta dos realizadores no novato Shia LaBeouf (visto em CONSTANTINE e no ainda inédito por aqui PARANÓIA). O rapaz foge do padrão consagrado de protagonista deste tipo de filme: não é particulamente bonito, nem musculoso ou descerebrado! Mas é, sim, muito simpático, engraçado e bom ator, conseguindo equilibrar a missão que acaba lhe sobrando com as tarefas de conquistar a mocinha e ainda livrar nosso planeta do extermínio. Simples, não? E o que se vê na tela é tão positivo que o próprio Spielberg já o escalou para o próximo projeto dele como diretor: LaBeouf será o filho de Harrison Ford em INDIANA JONES 4!TRANSFORMERS é muito mais espetacular do que ARMAGEDDON, muito mais romântico do que PEARL HARBOR e muito mais futurista do que A ILHA, para ficarmos em termos de comparação apenas com as frustrações anteriores de Michael Bay. Divertido, empolgante e extremamente competente de acordo com o que se propõe, é um dos mais completos projetos do verão 2007, obtendo bons resultados tanto junto à crítica quanto com o público (mais de US$ 230 milhões nas bilheterias norte-americanas em menos de 10 dias!). Frases feitas, clichês inevitáveis, muito barulho e pouco conteúdo? Sim, tem tudo isso, mas também apresenta entretenimento extremamente bem realizado. E de vez em quando isso já tá mais do que bom, certo?Transformers, EUA, 2007(nota 8)